A doença de Gaucher (DG) consiste em um erro inato do metabolismo do grupo das Doenças de Depósito Lisossomal (DDL), e é dentre estas, considerada a mais freqüente doença de herança autossômica recessiva, causada pela deficiência da enzima β-glicocerebrosidade que leva ao acúmulo de glicocerebrosídeo nos macrófagos principalmente em baço, fígado, medula óssea e pulmão.
As manifestações clínicas ou fenotípicas da DG vão depender do grau de deficiência da enzima, existindo três tipos:
• Tipo 1 ou forma não neuropática, que é a mais comum no mundo todo e se caracteriza pelo quadro visceral e hematológico e pela ausência de comprometimento neurológico; afeta crianças e adultos.
• Tipo 2 ou forma neuropática aguda na qual as manifestações clínicas são muito precoces e há comprometimento neurológico importante e grave; afeta crianças com 4 - 5 meses.
• Tipo 3 ou forma neuropática subaguda semelhante ao Tipo 2, porém menos precoce, afeta crianças e adolescentes
O comprometimento neurológico inclui degeneração mental e convulsões. A doença de Gaucher tipo 1 é a que melhor responde aos tratamento até os dias de hoje, o tipo 2 não responde e o tipo 3 pode responder em alguns casos à terapia de reposição de enzima.
A incidência da doença de Gaucher tipo 1 é de 1 para cada 40.000 - 60.000 nascidos vivos, a do tipo 2 é de 1 para cada 100.000 e o tipo 3 é de 1 para cada 50.000 - 100.000.
Existem aproximadamente 5.000 pacientes diagnosticados no mundo e 500 no Brasil . Suspeita-se que a doença seja sub-diagnosticada , pois baseando-se na incidência de 1/200.000 habitantes, chegaria-se a um número aproximado de 850 pacientes diagnosticados.
Os registros mostram que sua primeira descrição foi tese de doutorado de Philippe Ernest Gaucher em 1882.
Os passos seguintes foram decisivos para o progresso na compreensão da doença:
- em 1984, o Dr Ernest Beutler clonou o gene da glicocerebrosidase.
- em 1991, os Drs Barton e Brady, após longos anos de trabalho, purificaram a enzima placentária (alglucerase, com manose terminal, garantindo sua incorporação pelos macrófagos) que se mostrou eficaz no tratamento da doença tipo 1.
- em 1994, os Drs Grabowski, Barton , Brady e Pastores produziram uma glicocerebrosidase recombinante , produzida em culturas de células de ovário de hamster chinês , a imiglucerase , que substituiu com vantagens a anterior.
O diagnóstico é realizado com base na dosagem da enzima β-glicocerebrosidade , que está presente nos leucócitos do sangue ou em fibroblastos de biópsia de pele, cerca de 30% abaixo do normal nos pacientes com doença de Gaucher .
A análise das mutações traz informações adicionais , tendo sido detectadas atualmente mais de 150 mutações, sendo 7 mais freqüentes , algumas delas relacionadas com maior gravidade da doença.
A investigação na medula óssea é realizada quando se pretende avaliar pancitopenia e identificar as células características.
A dosagem da quitotriosidase, uma enzima secretada por macrófagos ativados, encontra-se elevada na DG e menos intensamente em outras DDLs. Pode ser utilizada para avaliação da resposta terapêutica, pois sua atividade diminui com o tratamento.
O conhecimento de que as Doenças de Depósito Lisossomal (DDL) resultam do bloqueio do catabolismo do substrato e não do aumento da síntese , levou ao desenvolvimento de estratégias terapêuticas de reposição enzimática.
A TRE (Terapia de Reposição Enzimática), considerada única terapia disponível durante anos, mostrou-se eficaz no tratamento dos pacientes com DG tipo 1 com alguma resposta em pacientes tipo 3 , não sendo eficaz no tipo 2.
Entretanto, avanços nos conhecimentos bioquímicos e moleculares levaram ao desenvolvimento de outras opções terapêuticas.
Em 2002 , uma molécula que reúne propriedades farmacológicas capazes de produzir a red
ução de substrato de administração oral (miglustate - Actelion Pharmaceuticals Ltda) foi instituída em pacientes com doença de Gaucher tipo 1, leve a moderada, para os quais a terapia de reposição enzimática é considerada inadequada.
O registro do medicamento Zavesca* (miglustate) foi aprovado pela ANVISA no dia 22 de janeiro do ano corrente.
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